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O que os cientistas argentinos sabem sobre a cepa Andes do hantavírus

Cientistas argentinos investigam a cepa Andes do hantavírus, que circula na Patagônia e é transmitida por roedores selvagens. A matéria detalha a transmissão entre pessoas, o papel do rato-de-cauda-longa e a influência de fatores ambientais como chuvas intensas.

Por Ana Clara NascimentoPublicado em 15 de maio de 2026, 11:28
O que os cientistas argentinos sabem sobre a cepa Andes do hantavírus

A cepa Andes do hantavírus circula há décadas na Patagônia argentina e chilena, sendo transmitida por roedores selvagens. Mas o surto associado ao navio de cruzeiro “Hondius” colocou o foco em uma característica excepcional desta variante: sua capacidade de ser transportado entre pessoas.

Como se comporta o roedor que a transmite? Há fatores ambientais que explicam sua propagação? Por que é tão difícil de ser estudado?

O roedor e o meio ambiente

O transportador do vírus Andes na Patagônia é o rato-de-cauda-longa, Oligoryzomys longicaudatus. O contágio inicial ocorre pela exposição à saliva, urina ou fezes de odores infectados, em geral em ambientes fechados.

Para o biólogo Raúl González Ittig, professor associado de genética de geografia da Universidade Nacional de Córdoba, os casos registrados na Argentina podem estar ligados a uma sequência de eventos ambientais: chuvas intensas associadas ao El Niño, mais regiões e maior disponibilidade de alimentos para os roedores.

Um maior número de animais não significa necessariamente um surto, mas sim mais oportunidades de contato. “Há mais indivíduos e há maior probabilidade de algum trabalhador rural se infectar”, disse González Ittig à AFP.

Já a seca e os incêndios, que costumam ocorrer no verão na região, “fazem diminuir a legislação de roedores”, explicou o especialista.

Nos casos de transmissão entre pessoas, o único roedor afetado é aquele que infectou o primeiro contágio. Nesse cenário, “não é aplicável o que se sabe ou suspeita sobre a associação ou influência de fatores ambientais”, disse à AFP a infectologista María Ester Lázaro, médica apresentada ao Hospital Zonal de Bariloche.

Além dos surtos conhecidos, na Patagônia argentina em 1996 e 2018, e agora no navio de cruzeiro, a transmissão entre pessoas é relacionada muito ocasionalmente na região.

Contágio entre humanos

O epidemiologista Rodrigo Bustamante, do hospital de Bariloche, ressalta que a transmissão entre humanos da cepa Andes “não é uma regra, mas um evento excepcional que requer contato próximo de menos de um metro durante trinta minutos”.

Também não se comporta como uma covid-19 ou uma gripe. “É muito menos transmissível”, disse Bustamante à AFP.

Os cientistas rejeitaram a ideia de que uma mutação recente tenha tornado a cepa dos Andes transmissível entre humanos.

“É um vírus muito estável, ao contrário da covid-19 ou da gripe. Cada hantavírus evoluiu desde tempos ancestrais com seu roedor hospedeiro sem sofrer mutações relevantes”, disse Lázaro.

Segundo o infectologista, ainda não se sabe "por que o vírus Andes, em vez de gerar um caso isolado ao infectar uma pessoa, é depois capaz de se transmitir a outra em alguns benefícios e até gerar cadeias de transmissão com vários elos".

González Ittig afirma, por sua vez, que acredita "que o vírus sempre teve essa propriedade" e que, possivelmente, "os humanos nasceram para ocupar os ambientes onde viveram os ratos".


Difícil de ser estudado

Lázaro acredita que a baixa ocorrência de casos na região dificulta tirar conclusões. A evolução clínica também pesa.

No começo, o paciente pode parecer saudável ou ter uma gripe com diarreia ou vômitos. “No quarto dia, em questão de horas, o paciente passa de um estado que parece uma gripe a já estar em um respirador”, explica a médica.

Na Terra do Fogo, de cuja capital, Ushuaia, saiu do navio "Hondius", cientistas discutem se o roedor local é o mesmo o rato-de-cauda-longa ou uma subespécie, sobre como existe um debate quanto ao seu potencial papel como reservatórios de hantavírus.

Especialistas do Malbrán, o instituto nacional que estuda doenças epidemiológicas, viajarão na segunda-feira para Ushuaia para realizar esta pesquisa.

No decorrer da atual campanha epidemiológica, que se estende por 12 meses a partir de junho de cada ano, foram registrados 102 casos de diferentes cepas de hantavírus na Argentina, quase o dobro dos 57 contabilizados no mesmo período anterior.

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